“Carpe diem” e trabalho se misturam?

A completa identificação do tédio como estado padrão da existência humana parece tão natural que, ao tentar defini-lo, arriscamos: “tédio é quando não temos nada pra fazer”. Não só o povo pré-histórico, mas todo o reino animal parece conviver perfeitamente bem com o ócio. Essa observação põe em questão um dos princípios fundamentais da história da tecnologia, chamado por Stephen Buhner de “teoria da ansiedade”. Em resumo, a teoria afirma que o progresso tecnológico foi, em geral, impulsionado por uma luta pela sobrevivência, e que essa luta, essa “precariedade da existência”, também se expressa no organismo de forma fisiológica e psicológica, ou em outras palavras, se manifesta como ansiedade. A ansiedade, portanto, é o meio pelo qual as ameaças à sobrevivência são traduzidas em ações para minimizá-las. Podemos reformular a teoria da ansiedade da seguinte forma: (1) a vida é perigosa, e a sobrevivência, difícil; (2) isso gera ansiedade; (3) o desconforto desse sentimento nos compele a controlar as circunstâncias perigosas ou difíceis através, por exemplo, da tecnologia; (4) assim, nos sentimos menos ansiosos.

Individualmente, a teoria da ansiedade tenta explicar o tédio do seguinte modo: não podemos nos dar ao luxo de ficar sem fazer nada. Se a vida é uma competição pela sobrevivência, então nossos genes devem nos impulsionar a utilizar cada momento da melhor forma possível, aumentando as chances de sobrevivência e reprodução. Dessa forma, ficar sem fazer nada vai contra a nossa própria programação genética, gerando um sentimento de desconforto que nos impele a fazer algo produtivo. Certamente, é o que muitos sentem ao tentar meditar, como uma crescente inquietação que nos leva a pensar: “Eu deveria estar fazendo algo.” Essa compulsão cultural é tão forte que até mesmo práticas espirituais, como rezar e meditar, são convertidas em apenas “coisas pra fazer”, momentos de empenho à campanha pra tornar a vida melhor.

Mas será que isso não é besteira? Podemos levar essa teoria da ansiedade a sério? Pergunte a qualquer um e você descobrirá que ninguém gostaria de voltar ao passado distante, numa época sem tecnologia. Temos uma imagem tenebrosa da vida primitiva, a imagem de uma experiência desconfortável, de uma luta sem fim pela existência. Os pressupostos contidos nessa imagem estão enraizados na crença de que a tecnologia nos salvará dos caprichos da natureza e, por fim, nos levará ao ápice do nosso potencial. Aqui temos, em suma, a ascensão da humanidade sob a mentalidade da “separação”.

Por incrível que pareça, a vida na Idade da Pedra não era necessariamente sórdida, brutal e curta — à la Hobbes. Diversos estudos apontam que nossos antepassados, longe de serem conduzidos pela ansiedade, viviam com relativa abundância e tranquilidade. Os !Kung, estudados pelo antropologista Richard Lee, são um belo exemplo. Apesar de viver num clima totalmente desfavorável, “trabalhavam” apenas 20 horas por semana. Além disso, muito desse “trabalho” não era nem mesmo árduo ou pesado. Maior parte das atividades masculinas de subsistência eram voltadas à caça, algo que hoje alguns fazem por lazer, enquanto as atividades de coleta eram repletas de brincadeiras e pausas.

Os aborígenes se referiam aos alimentos como “dádivas”, verdadeiros presentes da terra, floresta ou mar. Para nós, pessoas modernas, serve apenas como uma linda metáfora, mas era a pura realidade para sociedades anteriores à agricultura. A terra proporciona de tudo — plantas crescem e animais nascem — sem a necessidade de esforço ou planejamento humano. Um presente não é algo que precisa ser conquistado. Portanto, ao enxergar a própria vida como presente, alimentamos uma atitude de abundância e uma mentalidade de gratidão. Somente após a agricultura é que os presentes da terra se tornaram objetos de troca. No princípio, como uma troca de trabalho por colheita e, mais tarde, por objetos de comércio.

Minha intenção não é idealizar a vida primitiva. Certamente, estávamos mais sujeitos aos elementos: calor, frio, chuva e vento. Às vezes, havia fome. A natureza também pode ser “cruel” — sob a nossa atual perspectiva. A maioria dos animais têm predadores naturais e, portanto, também têm suas próprias incertezas. Sim, a vida é inerentemente incerta. Ainda assim, os animais não parecem atormentados pela ansiedade, e vivem, em boa parte do tempo, brincando e explorando. Será que os pássaros precisam cantar por tanto tempo pra encontrar um parceiro e estabelecer seu território? Até mesmo as abelhas, símbolos de trabalho e dedicação, gastam muito do seu tempo na colmeia, aparentemente, sem fazer nada.

Veja uma descrição das atitudes de trabalho de um grupo indígena sul-americano: “Os Yamana não são capazes de uma rotina de trabalho árduo e contínuo, para desgosto dos seus empregadores europeus. Trabalham de forma intermitente, com pausas frequentes, mas empregam muita energia durante os ocasionais esforços. Após algum trabalho, porém, demonstram a vontade de descansar por longos períodos, mesmo sem aparentar grande cansaço. Irregularidades desse tipo deixam seus empregadores europeus frustrados, mas não há o que fazer. Esta é sua disposição natural.”

Uma interpretação preconceituosa da descrição acima é facilmente sanada ao reconhecer, a partir de uma pequena suspeita, que esta também é nossa disposição natural. “Trabalham de forma intermitente…” isso não descreve o “trabalho” de uma criança também? Leitor, você também não sente vontade de “descansar” mesmo sem estar cansado? A atual contradição entre o nosso comportamento e a nossa disposição natural é um reflexo do poder exercido pela cultura. Estamos convencidos de que não podemos nos dar ao luxo de viver daquele modo, então nos condicionamos — e arrastamos nossos filhos — a transpor essa disposição natural e trabalhar pesado. Assim como a tecnologia busca aprimorar a natureza, a cultura busca aprimorar a natureza humana.

A negação da abundância na pré-história é ideologicamente necessária, do contrário o mito da ascensão perderia seu fundamento. A visão Hobbesiana de um estado natural sórdido, brutal e curto justifica todo o programa tecnológico, e segue implícita no mito do progresso e na ideologia da ascensão. Há quem encare a tecnologia e a cultura como tremendos enganos da humanidade, responsáveis pelo nosso declínio. Contudo, ainda é possível ter outra perspectiva. Talvez o acúmulo de eras de tecnologia e cultura tenham um propósito totalmente diferente, nem a minimização do sofrimento nem o completo controle dos instintos, mas algo que ainda estamos por reconhecer ou, até mesmo, compreender. Carpe diem.

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