A linguagem cria, mas também destrói

A linguagem é precursora de qualquer tecnologia que exija o acúmulo de conhecimento e a coordenação de atividades humanas. Todas as criações da civilização, das pirâmides às estações espaciais, se baseiam em símbolos. Sem diagramas, instruções, especificações, guias, programas de computador, dinheiro, textos científicos, leis, contratos, cronogramas ou bancos de dados, como poderíamos construir um microchip, uma bomba atômica ou um telescópio? Como conseguiríamos operar um aeroporto ou uma prisão? A linguagem foi fundamental para criar um reino humano à parte — uma representação humana da realidade.

Ao discutir tecnologia, surge também uma questão inevitável: “É possível separar a dádiva da maldição?” Assim como os exemplos acima deixam claro, também devemos questionar a linguagem. Afinal, ela é a base desse reino humano separado e, desde o princípio, nos oferece tanto o poder de criar quanto de destruir. O potencial destrutivo da linguagem se encontra na própria natureza da representação. As palavras, e particularmente os substantivos, reduzem uma infinidade de objetos e processos únicos a um número finito de categorias. As palavras ignoram a singularidade de cada momento e experiência, reduzindo-os à “isso” e “aquilo”. Nos concedem o poder de manipular e controlar, através da lógica, as coisas as quais se referem. No fim, algo acaba se perdendo — a própria essência das coisas. Pela generalização de características em categorias, as palavras tornam invisíveis qualquer diferença. Ao chamar “A” e “B” de árvores, nos condicionamos ao rótulo, cegos às peculiaridades de “A” e “B”. O rótulo afeta nossa percepção da realidade e, consequentemente, o modo como interagimos com ela.

Algumas culturas “primitivas”, anteriores aos rótulos genéricos, eram animistas e acreditavam que cada animal, planta, objeto e processo eram a própria manifestação de um espírito singular. Nesse tipo de cultura, uma árvore não era apenas “uma árvore”, mas um indivíduo distinto. Quando considerada apenas uma árvore, entre todas da floresta, derrubá-la não é tão grave. Afinal, nada de único será removido do mundo. Porém, quando considerada singular e insubstituível, só a derrubaríamos com muita cautela e por um propósito muito digno. Assim, ao converter todos esses seres únicos em apenas “muitas árvores”, não pensamos nem duas vezes antes de devastar florestas inteiras.

O mesmo se aplica aos seres humanos. O distanciamento produzido pela linguagem facilita a exploração, a crueldade, o assassinato e o genocídio. Quando outras pessoas, o “outro lado” de uma relação, são meros membros de uma categoria genérica (seja “cliente”, “terrorista” ou “colaborador”), encaramos a exploração e o assassinato com mais facilidade — às vezes até com indiferença. Epítetos raciais também se aproveitam do que chamamos de “desumanização da vítima”. Entretanto, a desumanização não ocorre apenas no contexto racial, mas em qualquer categorização — até mesmo em “humano”.

Não estou pregando a abolição dos substantivos, mas a conscientização da relativa fantasia que representam. Quando nos perdemos no reino artificial das abstrações (análises estatísticas, nomes de países, números em planilhas) e acreditamos que são reais, cometemos um ato de violência.

Quando reconhecemos cada rosto, não há motivos para generalizá-los em “pessoas”. Nossos ancestrais experimentaram um nível de intimidade que mal conseguimos imaginar atualmente, vivendo entre estranhos. Entre as palavras, asfixiamos não só a riqueza social, mas a totalidade da experiência sensorial. Margaret Mead observou algo interessante: “Para quem cresceu acreditando que azul e verde são cores distintas, é difícil imaginar como outra pessoa enxergaria essas mesmas cores caso não fossem diferenciadas, ou como seria enxergá-las em termos de intensidade e não de tonalidade.” E se as cores nem tivessem nomes? Como enxergaríamos um mundo nas milhões de cores que o olho humano é capaz de discernir? Mais rico? Mais vivo?

Talvez nossa crescente abstração do mundo, alimentada em parte pela linguagem, explique porque há 15 anos conseguíamos reconhecer 300 mil sons, enquanto hoje a média caiu para 180 mil. Segundo Joseph Chilton Pearce, há 20 anos uma pessoa comum poderia identificar 350 tons de uma dada cor — hoje, o número não passa de 130. Ao denominar, abstrair e reduzir o mundo, empobrecemos nossa percepção do mesmo. A linguagem é a base e o modelo para a padronização, generalização e abstração implícitos na ciência e indústria atuais. Na ciência, encontram-se na suposição de leis universais que se aplicam de forma geral à um substrato de partículas fundamentais. Na indústria, encontram-se na padronização de componentes e processos.

Ocasionalmente, temos a sorte de vislumbrar um momento “mágico” de percepção sem mediação da linguagem ou qualquer outro sistema de representação. O mundo parece vibrar com uma riqueza indescritível de sons e cores. Na simples tentativa de descrevê-lo, nos distanciamos da verdadeira realidade e, enfim, essa experiência divina desaparece. Habituados a interpretar o mundo indiretamente através de representações simbólicas, mantemos a maravilhosa realidade que nos cerca constantemente à distância.

A compreensão do poder da linguagem em nos distanciar da realidade remonta a milhares de anos, desde a época de Lao Tzu, como demonstra o início do Tao Te Ching: “O Tao que pode ser descrito, não é o verdadeiro Tao. O nome que pode ser nomeado, não é o verdadeiro nome.” As primeiras linhas de um dos maiores clássicos da literatura espiritual é um aviso, uma advertência sobre a deficiência da linguagem em representar a verdade. O Sutra do Coração, um dos textos mais importantes do Budismo, aborda o “vazio de todos os ensinamentos” e contém um alerta similar: “Não se encontra a verdade nas palavras dos ensinamentos. É um erro assumir que as palavras, por si só, contenham a verdade.”

Por outro lado, os antigos reconheciam na linguagem um outro aspecto paralelo à tendência em distanciar e iludir. Há uma linha mitológica que aponta para a existência de um “Idioma Original”, uma verdadeira linguagem que, de alguma forma, não simbolizava ou abstraia a realidade, mas era, ela própria, parte da realidade. Talvez seja o que Derrick Jensen chama de “uma linguagem mais antiga que as palavras”, algo como os clamores de animais selvagens. Esse idioma praticamente desapareceu, a não ser por certas expressões sobreviventes que ainda reverberam em nossa psique: “Aham”, “Eba”, “Uau”, “Amen”, “Ahhh” e “Ohhh”.

Ao estudar o idioma indígena norte-americano, Joseph Epes Brown descobriu que havia uma mistura peculiar de expressões verbais e não verbais, ou seja, a distinção entre som e palavra não era tão clara como nos idiomas modernos. Além disso, palavras ou nomes não eram compreendidos de forma simbólica ou dualística, pois a separação entre som e significado simplesmente não era concebível. Distante dos rótulos, os nomes e substantivos desse idioma eram aspectos intrínsecos e inseparáveis daquilo que denominavam — ao nomear um ser, aspecto ou função do universo, o trazemos à realidade. Portanto, os nativos americanos usavam o real nome das coisas com grande cautela, pois dizer o nome de um urso, por exemplo, invocaria sua presença.

O poder criativo da fala é difícil de compreender sob uma perspectiva dualista (apenas “falar” sobre algo não muda nada, certo?), mas ainda observamos vestígios dessa compreensão em certas superstições. Falar sobre coisas ruins ainda é um tabu na cultura chinesa, sob risco de torná-las reais. Parece algo absurdo enquanto falamos dos “outros” (nesse caso, os chineses), mas ainda batemos 3 vezes na madeira.

Palavras que não sejam rótulos estabelecidos arbitrariamente a uma realidade objetiva, mas que tenham força criativa, remetem à relação hindu entre certos sons e forças divinas; à versão bíblica da “palavra de Deus”; à identidade quase universal entre sopro e espírito. Afinal, o que é uma palavra senão um tipo especial de sopro? A palavra é um sopro proposital, carregado de significado, um sopro criativo, pois atribui sentido a um mundo que, de outra forma, simplesmente seria.

Ao compreender o verdadeiro propósito da linguagem, descobre-se um poder criativo inacreditável. A partir da matéria-prima da natureza, descrevemos um reino humano à existência, assim como Deus, em Gênesis, descreveu o mundo material à existência. Tal como Deus, do qual somos feitos e fazemos parte, também descrevemos mundos à existência.

A linguagem destrói, mas também cria.

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13 comentários sobre “A linguagem cria, mas também destrói

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