Somos peças nesse mundo-Máquina

Máquina: uma combinação de peças distintas, cada qual com sua função, operando sob controle humano para utilizar energia e realizar trabalho. É assim que Lewis Mumford define uma máquina e lança a ideia de que suas primeiras versões não eram feitas de metal, mas de seres humanos. Apesar de invisível, devido a separação espacial entre seus componentes humanos, essa “máquina” tornou-se um modelo para todas as seguintes. Os produtos dessas incríveis máquinas ainda são visíveis, basta lembrar das pirâmides do Egito.

A Máquina permitiu uma nova e profunda expansão da ambição humana em dominar, subjugar e, eventualmente, transcender a natureza. A agricultura preparou o terreno para essa ambição, promovendo uma mentalidade de dominação e lançando as bases da divisão do trabalho — avanços que transformaram a humanidade numa nova força da natureza. As pirâmides são evidências de que os homens são capazes de feitos sobre-humanos — divinos — tal como erguer uma montanha. Aliás, ainda melhor que uma montanha: uma forma geométrica de perfeita precisão.

Alguns dos piramidologistas modernos, defensores de que as pirâmides utilizaram tecnologia extraterrestre, estão certos em uma coisa: apenas sob a mentalidade e os métodos de uma “civilização Máquina” é que tais feitos se tornaram possíveis. As pirâmides foram construídas por máquinas, sim, porém compostas não de metal ou madeira, mas de seres humanos alimentados por uma agricultura ribeirinha e culturalmente condicionados em peças padronizadas — tal como requer uma máquina. Além do tremendo esforço físico para realizar tal feito, nota-se que a tamanha especialização de funções, a coordenação das partes e a infraestrutura socio-tecnológica necessária são, todas elas, características fundamentais da Máquina.

Ao longo da história, o “operador” dessa Máquina foi acumulando poder suficiente para realizar feitos sobre-humanos, portanto não se admira que civilizações antigas, do Egito à China, atribuíam status de divindade ao rei. Os monumentos antigos eram como uma prova, a afirmação material de que o rei não estava sujeito às limitações da natureza. Quem, se não um deus, poderia erguer uma montanha ou mudar o curso de um rio?

Mas é claro, tais “poderes divinos” (de transcender a natureza) eram atribuídos somente ao “operador”: o rei — aos demais, restava o papel de “peça”. Mais tarde, à medida que novas máquinas foram construídas, sob a lógica e os mesmos princípios da Máquina, surgia uma nova possibilidade: um dia, todos poderão ser “reis” e ter ao seu dispor o equivalente à mão de obra de milhares. Ao mesmo tempo, enquanto superávamos um limite natural após o outro, se consolidava a ideia de que também podemos, num certo sentido, ser deuses. É incrível como as características dos deuses gregos remetem às ambições da utopia tecnológica: imortalidade, juventude eterna, beleza física impecável, viajar a velocidades incríveis, voar e dominar completamente os processos da natureza. Como já previsto pela semidivindade dos imperadores chineses e faraós egípcios, almejamos, através da nossa tecnologia, o status de deuses.

Tal ambição está implícita na ânsia em criar a imagem perfeita e reduzir o mundo em representações (nomes e números) sujeitas a um total controle — mesmo que por meios finitos e limitados. Antes da linguagem, dos números, do tempo e outras formas de representações simbólicas, ninguém poderia ter concebido a ideia de uma máquina, pois ela requer e impulsiona, como fundamento conceitual, a objetificação do mundo.

A regularidade, padronização e especialização dessas “máquinas de carne e osso” constituem um distanciamento ainda maior da natureza. A grande era das construções convenceu a mente humana de que somos algo “diferente”, já que produzimos coisas e utilizamos métodos nunca antes vistos. Na verdade, essa mudança de paradigma começou com os primeiros objetos “artificiais” (dando origem à noção de que o homem é separado da natureza), mas as máquinas levaram essa separação a uma outra dimensão: o poder de produzir coisas além da capacidade humana individual.

Ao longo do tempo, observou-se um avanço gradual na divisão do trabalho e, assim, também na complexidade da Máquina. Tração animal, roldadas, parafusos, rodas, ferro e aço, todos eles aprimoraram nossa habilidade em dominar, dividir e controlar a natureza. Porém, nenhum desses avanços reduziu as estruturas mecânicas da própria sociedade, na qual cada indivíduo é apenas uma “peça”, mesmo que especializada numa certa função. Para que uma máquina funcione sem problemas e de maneira previsível, suas peças devem ser padronizadas e substituíveis. Cada componente padronizado é apenas parte de um homem, forçado a trabalhar num segmento específico e viver apenas parte de uma vida. Enquanto o domínio da Máquina — e todos os aspectos da vida sujeitos à especialização da divisão do trabalho — cresce, a despersonalização e a ansiedade se intensificam.

Hoje, o domínio da Máquina se estende para incluir quase tudo. O sistema fabril, com ênfase na padronização de partes e produção em larga escala como estratégias para aumentar a eficiência, são aplicados muito além da manufatura. Nas escolas, por exemplo, as etapas padronizadas, os operadores treinados e a classificação dos produtos através de “notas” são resquícios da fábrica. A semelhança não é coincidência — as escolas foram concebidas pelos mesmos especialistas em eficiência que também conceberam as fábricas — e a desumanização, diga-se de passagem, também é a mesma. O processo tem início com a atribuição de mais e mais números para cada pessoa, até que, eventualmente, chegam a nos definir como simples conjuntos de dados. Enquanto isso, na agricultura, a lógica e os métodos da indústria têm sido aplicados à própria terra, agora sujeita aos mesmos imperativos da eficiência e, de fato, tratada como uma fábrica.

A Revolução Industrial que prometeu transformar cada humano num rei ou deus, também agravou a separação entre homem e natureza. Ao passo que as Máquinas antigas permitiram feitos além da capacidade individual do homem, o motor à vapor permitiu feitos além da capacidade biológica do homem, reforçando a ideia de que os seres humanos, na verdade, não fazem parte da natureza, ou pior, que o nosso destino seja superá-la. Passamos a acreditar que os domínios naturais ainda não conquistados, como a velhice, a morte, os males sociais e assim por diante, sucumbirão sob a força da ciência, tecnologia e indústria, assim como todas as demais limitações anteriores já sucumbiram. Kirkpatrick Sale aborda algumas das possíveis consequências desse Programa Tecnológico:

“Imagine o que acontece com uma cultura quando se baseia na ideia de transcender limites, consagrando tal ideia como propósito global da civilização. É provável que viva em função de imperativos tecnológicos, numa devoção constante em proporcionar máquinas para solucionar o possível. Imagine, então, o que acontece com uma cultura quando realmente desenvolve meios para transcender limites, tornando possível e, portanto, justo, destruir os costumes e a comunidade para criar novas regras de trabalho e obrigações, para amplificar a produção e o consumo, para impor novos meios e formas de trabalho e, enfim, para controlar ou ignorar as principais forças da natureza. Certamente, tal cultura existiria por muito tempo, poderosa, expansionista e orgulhosa, antes de ter que encarar o fato de que se baseia numa ilusão e que existem, sim, limites reais, sociais, econômicos e também naturais, num mundo organizado, que não podem ser superados, limites mais importantes que suas conquistas.”

A Máquina, então, nos deu tanto a confiança quanto os recursos necessários pra tentarmos transcender as limitações naturais, ou, de forma poética, ascender aos céus e tomar o poder dos deuses. Só começamos a questionar esse Programa Tecnológico recentemente, e apenas porque está evidentemente estagnando. Uma das razões dessa estagnação já foi contada pela história de Babel, em que a comunicação entre línguas mutuamente incompreensíveis tornou impossível a coordenação da obra. Analogamente, a excessiva divisão do trabalho que tornou possível todo o Programa Tecnológico também gera, eventualmente, tanta dificuldade e tanta confusão em gerenciar esse trabalho que os esforços se perdem sob seu próprio peso. Nem a ciência escapa, pois a hiperespecialização torna vários campos inacessíveis uns aos outros, e a comunicação entre diferentes áreas torna-se impossível. Assim, cada um segue solucionando os problemas específicos de sua própria área, enquanto os problemas sistêmicos se tornam cada vez maiores e continuam sem solução.

O resultado imediato da indústria moderna não foi fazer de cada homem um deus, mas um escravo. Para o trabalhador, a superação das limitações biológicas significaram a subordinação dos ritmos naturais aos ritmos da máquina: incessante, sem fome, sono ou descanso. A fábrica marcou, se não o início, uma grande aceleração na concepção moderna de trabalho: algo que devemos nos disciplinar para executar, ignorando os “impulsos biológicos inconstantes”. Trabalho tornou-se esforço, com necessidades repetitivas e constantes, tal como as funções das máquinas que o servem. E o que fizemos com o trabalho, reaplicamos ao conceito de “produto”. As primeiras “tecnologias culturais” em nomear e numerar sugeriam um universo de objetos genéricos e, consequentemente, a indústria passou a implementá-las através da ênfase na padronização e uniformidade dos produtos. Com raras exceções, objetos naturais são únicos e infinitamente variáveis. A indústria, por sua vez, busca o oposto, e a uniformidade artificial de seus produtos reforça ainda mais a separação entre homem e natureza. Em paralelo a essa uniformidade em massa, veio a dissolução das diferenças locais à medida em que as pessoas começaram a comer, vestir, usar produtos idênticos e executar trabalhos iguais.

Finalmente, a padronização, homogeneidade e especialização de funções que caracterizam a fábrica também passaram a caracterizar os habitantes do mundo-Máquina. O que começou com aquela Máquina de Mumford jamais desapareceu, apenas se aprofundou. Hoje, nossas especializações nos definem e validam nossa existência. Agrupados como “consumidores” ou “força de trabalho”, divididos estatisticamente em categorias pelos pesquisadores e cientistas sociais, nós, humanos, também nos tornamos genéricos, privados da individualidade que uma vez brotava de um conjunto único de relações com a natureza e o próximo. A indústria tomou a redução da natureza como objetivo, e o que começou de forma psicológica, através do simbolismo, foi projetada na terra através da agricultura. Se aqueles primeiros avanços reduziram o mundo em objetos, hoje, a indústria transforma objetos em produtos, tempo em dinheiro e seres humanos em consumidores. O mundo inteiro, em outras palavras, está sendo convertido em dinheiro — a máxima do anonimato, abstração e generalização.

Será que não há saída, exceto desfazermos todo o curso dessa especialização e retornarmos a uma sociedade sem divisão do trabalho? Será que não há escolha, senão abolir toda a tecnologia que depende desse processo? Na verdade, há um sistema no qual a especialização não leva à redução do indivíduo, mas à sua realização. O modelo desse sistema está aí com você: a sociedade de células que compõe o corpo humano. Os “órgãos” dessa sociedade orgânica e ecológica já estão em crescimento, sustentados por modelos inovadores, ideias e pessoas insatisfeitas com o mundo atual. Só nos resta contribuir e ter esperança de que estarão maduros o suficiente para substituir o decadente mundo-Máquina enquanto ainda há tempo.

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