Irmão, você já aceitou a Ciência?

Por volta do século XVI, nossa ascensão a um reino exclusivamente humano acelerou-se dramaticamente. Linguagem, tecnologia, números, imagens e tempo se tornaram, um por um, objetos de uma ambição em estender seus respectivos domínios para compreender a realidade. Diversas civilizações antigas sonharam com tamanho poder, mas somente o Renascimento e a Revolução Científica revelaram os meios para alcançá-lo.

Quatro séculos depois, vivemos num mundo totalmente transformado. Milagres e mágica, funções dos deuses de outrora, agora operam diariamente. Comunicação intercontinental instantânea, viagens pelo céu, livros inteiros ao toque de um botão, imagens perfeitas e outras tantas maravilhas agora são triviais — graças a Ciência. Devemos a ascensão da civilização à Ciência, pois acreditamos que ela nos elevou das superstições primitivas ao conhecimento objetivo. Ciência, a grande conquista do homem moderno. Ciência, desvendando os segredos mais profundos do universo. Ciência, destinada a conduzir o universo inteiro ao reino humano de compreensão e controle.

Perceba como o adjetivo “científico” sugere alguns pressupostos sobre a natureza da realidade e nossa relação com a mesma. A Ciência oferece prescrições de como viver a vida, organizar a sociedade, entender o mundo e buscar conhecimento, além, é claro, de nos dizer quem somos, de onde viemos e pra onde vamos. Sob a perspectiva de outra cultura, tais prescrições e histórias sobre o mundo e como ele funciona seriam descritas como uma religião — irmão, você já aceitou a Ciência? A fé, agora batizada de verdade, fatos e provas, nos faz crer que esse nosso culto é fundamentalmente diferente dos mitos de outras culturas — amém. Mas, por quê?

Não somos os únicos a acreditar que nossos mitos e histórias são especiais. Achamos que as demais culturas eram ingênuas, limitadas apenas a “acreditar” que em seus mitos, pois somente os nossos são reais de verdade. De onde vem tanta certeza? Quais as nossas justificativas? Duas se destacam, uma teórica e outra prática: a doutrina da objetividade e o poder da tecnologia.

Na prática, acreditamos na Ciência devido ao enorme e evidente poder que a tecnologia nos concede para manipular o meio material. O mundo, tal como experimentamos hoje — um mundo artificial, um mundo humano — é a própria Ciência materializada. A mera existência do mundo em que vivemos é prova de sua existência. A Ciência nos deu a habilidade de moldar paisagens e alterar o código da vida, portanto, tendo nos dado tamanho poder, como poderia ser um falso deus?

Contudo, não é difícil imaginar que outras culturas poderiam julgar todo o nosso poder sobre o meio físico como algo inconsequente, talvez um aspecto irrelevante da vida, ou quem sabe até negar que seja algo tão grandioso assim. Comemos, dormimos, produzimos lixo, fazemos amor, envelhecemos, adoecemos e morremos como todos os outros seres humanos, não? Também experimentamos a mesma gama de emoções que outras culturas de qualquer lugar ou época, não?

Inventamos meios de comunicação incríveis, mas nos comunicamos entre si? Nos locomovemos rapidamente pra lá e pra cá, mas qual o motivo de tanta pressa? Estamos acorrentados mentalmente, moralmente e espiritualmente. Mas que diabos conquistamos, nivelando montanhas, aproveitando energia dos rios ou movendo populações inteiras como peças de xadrez, se permanecemos as mesmas criaturas inquietas, miseráveis e frustadas de antes? Chamar tais atividades de “progresso” é simples ilusão. Podemos transformar a superfície do planeta e torná-lo irreconhecível, mas qual o sentido disso se continuamos essencialmente inalterados?

Temos uma ciência altamente desenvolvida em certos aspectos do mundo material, por isso citamos nosso poder justamente sobre tais aspectos como prova de validade — a lógica é circular, percebe? Uma outra cultura poderia ter uma ciência altamente desenvolvida em outros aspectos do mundo que nós nem mesmo reconhecemos ou sequer consideramos importantes. Um aborígene australiano poderia nos considerar primitivos na compreensão e uso dos sonhos. Um médico tradicional chinês nos acharia ignorante acerca da energética das plantas e do corpo humano.

Isso nos leva à segunda justificativa do sistema de crenças que chamamos de “ciência”. Atribuímos um status privilegiado às nossas histórias, pois achamos que o Método Científico garante objetividade. Acreditamos que a Ciência é mais do que mera religião, pois ao contrário de tudo que veio antes, se baseia no que é verificável, numa verdade objetiva. A Ciência não é apenas uma outra alternativa, ela engloba e sobrepõe todas as outras abordagens ao conhecimento. Podemos examinar cientificamente os sonhos ou a medicina chinesa. Podemos realizar medidas, fazer estudos duplo-cegos e testar as afirmações de outros sistemas de conhecimento sob condições controladas. Acreditamos que o Método Científico elimina os preconceitos culturais ao prescrever um método imparcial e confiável de obter a verdade através da observação. Eis o primeiro mandamento: ao utilizar a lógica e a replicabilidade, escaparemos dos limites da cultura e libertaremos o conhecimento da subjetividade e suas influências — palavra da salvação.

O Método Científico, através do teste de hipóteses, resgata um tipo de certeza ausente em outras abordagens do conhecimento, uma validade universal sem ligação com a cultura. Qualquer um, independente da origem, poderia realizar o mesmo experimento e obter resultados idênticos. Enquanto seguirmos rigorosamente o Método Científico, teremos uma forma confiável de distinguir fatos de superstição. Assim, se torna uma lâmina intelectual destinada a cortar através das camadas de crenças culturais para obter uma verdade objetiva por trás de tudo. Finalmente nos libertamos de qualquer ligação com a subjetividade e seus limites pessoais e culturais ao conhecimento.

Mas estamos realmente livres da subjetividade? Será que o Método Científico é, de fato, um caminho supra cultural para a verdade ou apenas algo que incorpora nossos próprios pressupostos culturais sobre o universo? Será que a própria ciência não é uma ampla elaboração das crenças mais gerais da nossa sociedade sobre a natureza da realidade? Será que a instituição da Ciência não tem apenas projetado nossa cultura para o universo com o intuito de validá-la e reforçá-la através de observações seletivas e de fácil interpretação? Será que nós, em outras palavras, também não criamos um mito?

Talvez tenhamos feito apenas o que todas as outras culturas fizeram. Aquelas observações que se encaixam em nossa mitologia básica, aceitamos como fatos. Aquelas interpretações que se encaixam em nossa concepção de si mesmo e do mundo, aceitamos como candidatos à legitimidade científica. Aquelas que não se encaixam, dificilmente nos damos ao trabalho de avaliar ou verificar, aprovar ou desaprovar, recusando-as como absurdos indignos até de consideração. “Tal coisa não é verdade simplesmente porque não poderia sê-lo.” Foi essa mentalidade que fez com que os colegas de Galileu ignorassem seu telescópio, pois “sabiam” que Júpiter não poderia ter luas — a fé, quando cega, (re)move mais do que montanhas.

A História já mostrou que cientistas são tão sujeitos quanto qualquer um à pressão, autoenganação, cegueira institucional, teimosia e paradigmas. Nossa cultura não é, nem foi, a única a acreditar que possui “a verdade”, ao ponto de ter certeza absoluta disso. No entanto, o problema é mais profundo que o abuso e a manipulação do Método Científico. É necessário reconhecer suas limitações inerentes, pois surgem de pressupostos tão sutis e tão intrínsecos a forma como enxergamos o mundo que já deixamos de questioná-los. A verdade é que raramente nos damos conta, e aceitamos tudo como fato — ele está no meio de nós. Mesmo ocultos, esses pressupostos impregnam nosso senso comum, ditando como devemos viver e organizar a sociedade, como devemos entender o mundo e buscar conhecimento. Sim, o Método Científico pode ser manipulado à serviço de preconceitos culturais e institucionais, mas o que poucos enxergam é que o próprio Método Científico representa um postulado básico, porém considerável, sobre a natureza da realidade. Em vez de nos libertar dos preconceitos culturais, nos leva a aprofundá-los ainda mais — é nosso dever e nossa salvação.

Você, leitor, tem ideia do que eu estou falando? Imagino que o pessoal de exatas e os fãs da dupla “Ciência & Tecnologia” devem estar se coçando e achando tudo isso uma bobagem. Afinal, que pressupostos poderiam existir quando o Método Científico afirma: “Não aceitaremos nada pela fé. Testaremos cada hipótese para verificar se é verdadeira.” Ciência, escutai a nossa prece (no próximo post).

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16 comentários sobre “Irmão, você já aceitou a Ciência?

  1. Ótimo texto e ótimo final! Só o fato do pessoal mais científico começar a ficar incomodado de uma forma mais emocional e quase fanática, já deixa claro que é uma crença como qualquer outra. Afinal o verdadeiro cientista nunca tem medo de estar errado e de quebrar seus paradigmas… Mas existe realmente algum “verdadeiro cientista” por aí?

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    1. Perfeito o seu comentário, Adriano! Aquela humildade dos “verdadeiros cientistas” de antigamente acabou se perdendo com o tempo, dando lugar a uma “cegueira científica” e suas verdades absolutas. Há tanta coisa boa desenvolvida pelas culturas orientais que a ciência só foi capaz de “comprovar” recentemente (vide “os benefícios da meditação” e afins)… Enfim, a ciência pode ser maravilhosa, mas é preciso reconhecer as suas limitações. Valeu pela visita! 🙂

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  2. A ciência se baseia numa série de pressupostos filosóficos que muitas vezes são ignorados pelos cientistas mais hard. Mas acho que chamar a ciência de crença é um pouco demais, pois generaliza a questão do método científico para o das crenças, no sentido sendo comum do termo. A ciência não é uma crença no sentido de que existem uma série de afirmações sobre a realidade que devem ser aceitar cegamente. Existem uma série de argumentos e evidências trabalhadas para se considerar tal visão de realidade como a ‘verdadeira’ – ainda que, também, “verdade” dentro da ciência, tecnicamente, tenha uma definição diferente da que usaríamos no senso comum.

    Enfim, acho exagero tratar a ciência como o método responsável por desvelar a realidade em si, mas também é um tremendo exagero dizer que a ciência é mais uma forma de crendice.

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