A Ciência e seus mandamentos

O principal pressuposto do Método Científico nos parece tão óbvio que se tornou indiscutível: se duas pessoas realizarem um experimento idêntico, obterão os mesmos resultados. Isso requer (a) determinismo: as mesmas condições iniciais resultarão nos mesmos resultados finais, e (b) objetividade: o pesquisador não faz parte do experimento. Perceba também que esses dois princípios estão interligados.

No fundo, o Método Científico assume que há um universo “objetivo” e “exterior” pronto para ser explorado; consultado experimentalmente; usado para determinar se uma certa teoria é verdadeira ou falsa. Sem essa suposição, todo o conceito de “fato” torna-se vago — talvez até incoerente. Com raízes no latim, factio, ou o “ato de fazer”, sugere uma antiga ambiguidade entre existência e percepção, ser e fazer, o que é e o que é feito. Enfim, por que não aceitamos que os fatos, tal como artefatos ou manufaturados, também são produzidos por nós?

Esse universo “exterior”, em princípio, não tem ligação alguma com qualquer observador — daí a replicabilidade dos experimentos científicos. Se eu e você “consultarmos o universo” com um experimento idêntico, chegaremos ao mesmo resultado. Cegos por nossa ontologia, não enxergamos isso como suposição, mas como necessidade lógica. Sim, é mesmo difícil imaginar uma linha de pensamentos convincente que não incorpore a objetividade. Tampouco podemos imaginar alguma que dispense o determinismo — expressão da noção moderna de causalidade. Assim, encaramos ambos não mais como suposições condicionais da nossa cultura, mas como princípios básicos da lógica.

O fato de que toda a Física do século XX invalidou precisamente esses princípios de objetividade e determinismo parece ainda não ter influenciado nossa intuição. A mentalidade Newtoniana clássica segue obsoleta há mais de 100 anos, mas ainda não absorvemos as implicações revolucionárias da mecânica quântica que a substituiu. Incrivelmente, quase um século após sua formalização matemática, a tal mecânica quântica ainda desafia interpretações.

Mesmo obsoleta, a ciência clássica ainda constitui e se expressa pelas crenças e instituições dominantes em nossa cultura. A ciência nada mais é que uma ampla e elaborada articulação do mito que define nossa civilização: somos seres distintos e separados, vivendo num universo objetivo repleto de “outros”. A ciência não apenas supõe, mas também incorpora e reforça esse mito, nos cegando para outras maneiras de pensar, viver e ser.

Os dois pilares da “religião científica” geram o mesmo tipo de limitação. O poder da tecnologia confirma, via lógica circular, a validade prática da ciência somente nas áreas em que se aplica. Enquanto isso, o Método Científico ignora, por sua própria natureza, classes inteiras de possíveis fenômenos, pois é fundamentalmente incapaz de apreender aqueles não sejam objetivos ou determinísticos. Ao acreditar que o Método Científico é a melhor forma já descoberta de separar a verdade das mentiras e ilusões, concluímos que tais fenômenos simplesmente não existem: são apenas mentiras, ilusões, truques ou superstições. Nossa ontologia e métodos são essencialmente incapazes de admitir possibilidades como “Eu consigo ver o unicórnio, mas você não”, a não ser que as justifique como “estava lá, mas você não viu.” O “estar lá”, a “existência”, é tido como uma realidade objetiva e absoluta, independente de qualquer observador. Mais especificamente, associamos ingenuamente a “existência” à algum evento num sistema absoluto de coordenadas Cartesianas: se o unicórnio estava no ponto X, Y e Z, no tempo T, então ele existe.

Que tal um exercício de visualização? Feche os olhos e imagine algo, qualquer objeto, simplesmente existindo. Pronto? Você enxergou algo solto, flutuando sozinho no espaço? A separação faz parte da nossa própria concepção de ser. Perceba como a existência foi distorcida e já não ocorre mais de forma relacionada, mas isolada. “Ser” é ocupar um ponto distinto no tempo e espaço.

Nada disso seria problema se o universo fosse “realmente” assim. No entanto, antigas formas de pensar e a física do século XX discordam dessa percepção. O universo Cartesiano é, na melhor das hipóteses, uma simples aproximação, uma ferramenta matemática útil para solucionar problemas em casos muito específicos. Apesar disso, continuamos limitando nossa compreensão numa tentativa de encaixar toda a realidade nesse molde. Ao considerar o Método Científico como “teste definitivo para a verdade”, passamos a tomar como lei, mesmo que implicitamente, as próprias suposições nas quais ele se baseia.

O Método Científico sustenta sua validade supra cultural em princípios que, por si só, já estão entre suas suposições — a lógica de suas justificativas é circular. Seria como se um aborígene insistisse: “Tudo bem, vamos resolver definitivamente se o caminho para a verdade são os experimentos científicos ou os sonhos: perguntaremos aos nossos ancestrais (no mundo dos sonhos).” É difícil imaginar, mas as principais suposições que suportam todo o Método Científico (objetividade e determinismo) não são universais. Uma linha de pensamento que não seja objetiva nem determinística, porém coerente, é possível. Aliás, mais do que possível, é necessária, visto o iminente colapso do mundo concebido por um Eu distinto e separado. Também é necessária sob a ótica da nova revolução científica das últimas centenas de anos. Nosso modo de pensar — e ser — não está mais funcionando tão bem. Olhe ao redor, olhe pra si mesmo. Há dúvida?

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A Ciência é a intensificação dessas tendências de autoconcepção que remontam a milhares de anos. Seus mandamentos, objetividade e determinismo, refletem profundamente o modo como nos compreendemos em relação ao mundo, penetrando até os níveis mais profundos do pensamento, da linguagem e da razão. Observe um dos trechos acima: “se o universo fosse ‘realmente’ daquele jeito”. O que quer dizer esse “realmente”? Significa algo como: “não apenas na opinião de alguns, mas de fato”. E o que quer dizer esse “de fato”? O pensamento não objetivo é extremamente difícil de se comunicar, pois a suposição de objetividade faz parte até da própria linguagem.

Objetividade e determinismo são intrínsecos a nossa própria concepção de si mesmo. Portanto, não se admira que as novas ciências do século XX têm se mostrado tão difíceis de se integrar ao nosso entendimento geral do universo. Por isso, as descobertas em mecânica quântica parecem tão absurdas, tão estranhas.
Nos percebemos como seres distintos, separados do universo a nossa volta, e projetamos essa percepção no Método Científico, tornando-o incapaz de lidar com fenômenos em que o pesquisador é um aspecto inseparável. Suponha que algo como a telepatia só funcione se, e somente se, o pesquisador realmente acreditar que funcionará. Sendo assim, a telepatia estará inerentemente fora do alcance do Método Científico, pois o pesquisador não é livremente replicável. Não poderíamos replicar as “condições iniciais”, porque as condições iniciais levariam a diferentes resultados para diferentes pesquisadores. Essa falha de determinismo — condições iniciais idênticas levando a resultados diferentes — só seria solucionada ao reconhecer que o “pesquisador” faz parte daquelas condições, invalidando, portanto, os princípios da objetividade.

Não estou pregando a abolição do Método Científico. Estou apenas resgatando suas próprias limitações, assim como o tipo de conhecimento que é capaz de produzir. O Método Científico tem o seu lugar — um papel muito importante — numa nova ciência que emergirá à medida em que a sociedade evolui. Em sua essência, o Método Científico se apoia numa linda motivação, um ideal de humildade e desapego intelectual que só tem a contribuir com qualquer sistema de crenças. Mas ao invés de um interrogatório alienado em prol da objetividade, por que não encaramos as ciências experimentais como um diálogo com a natureza?

De modo geral, o Método Científico falha em suas convicções quando o próprio ato de formular e testar uma teoria, dada uma suposta realidade “exterior”, cria ou altera essa mesma realidade. O jornalismo pode ser usado como modelo pra entendermos como a objetividade na ciência pode ser falha, e ilustra bem a codependência entre observador e realidade. As pessoas se comportam de maneira diferente quando sabem que há um jornalista presente. Além disso, mudamos a importância de um evento ao relatá-lo, ao ponto em que alguns eventos se tornam dignos de relato só porque há um jornalista presente. Os valores e prioridades das agências de notícias são, inevitavelmente, projetados como critérios para definir o que deve ser relatado ou não, já comprometendo a objetividade. Ainda assim, alguns jornalistas mantêm uma falsa imparcialidade, o que não só é um ideal impossível, mas também um conceito incoerente e traiçoeiro.

Mesmo assim, a objetividade permanece como padrão quase universal de idoneidade intelectual em nossa cultura. O ideal do cientista imparcial, que ignora seus preconceitos numa busca pela mais pura verdade objetiva, também se projeta em outra áreas, tais como o jornalismo, o judiciário e até a vida pessoal, através de decisões “racionais” independentes de qualquer emoção. Mas será que isso é possível? Basta uma breve reflexão para perceber que, nesse mundo humano, nada é imparcial.

Além da objetividade científica, a própria razão expressa e reforça nossa gradual abstração da natureza. Em essência, razão é a aplicação de uma relação abstrata para algo novo. Ao observarmos a relação entre A e B, dizemos que a relação entre C e D será da mesma forma. Por exemplo: “Todos os humanos morrem; Eu sou humano; Portanto eu vou morrer.” A está para B e C está para D. Isso é uma razão. Isso é racional. Razão é a identificação e aplicação de padrões abstratos.

A conotação matemática da palavra “racional”, no sentido de “razão”, sugere que o pensamento racional também contém o rigor e a certeza da Matemática. Ao contrário de um simples número, originalmente associado a objetos concretos e, assim como na ciência, expresso em unidades de medida, uma razão ignora o contexto (unidades de medida) e passa a expressar uma abstração pura, sem qualquer ligação com uma experiência específica. Isso contribui para a glorificação da razão como uma espécie de domínio supernatural abstraído da realidade concreta — abstraído, na verdade, da natureza. Sendo exclusiva aos seres humanos, a capacidade da razão é tida como prova da nossa ascensão sobre a natureza e os demais seres vivos. Quanto mais nos apoiamos na razão, mais ascendemos… e assim surge o sonho de uma sociedade perfeitamente racional como ápice do desenvolvimento humano.

A ciência e a razão se baseiam na identificação de padrões. Porém, a possibilidade de não estarmos observando, mas na verdade “criando” esses padrões através do que acreditamos, representa um profundo questionamento à própria validade da ciência atual — estaríamos apenas observando nosso próprio reflexo? Além dessas duas possibilidades opostas, ainda há uma terceira, dialética, que representa a não separação de sujeito e objeto: a cocriação mútua de crenças e realidade.

O Método Científico, assim como toda sua concepção de raciocínio, se baseia na crença de uma realidade “exterior” e independente. Analogamente, baseamos nosso pressuposto cultural na crença de que somos um Eu separado num mundo de “outros” — outra faceta do dualismo básico entre sujeito e objeto. Esse é o pressuposto cultural que cresceu ao longo do “progresso”, motivando a tecnologia que, por sua vez, reforçava esse mesmo pressuposto — um círculo vicioso. A ciência só fez levá-lo ao extremo, à sua realização. A ciência, portanto, não é anterior à nossa concepção de “si-mesmo” e do universo, mas um produto dessa concepção. A ciência é uma ideologia, nada mais.

Do mesmo modo que outras culturas anteriores a nossa, criamos uma mitologia, uma série de histórias pra explicar como tudo funciona. Nela, incluímos as forças da natureza, as forças da natureza humana, a história da nossa origem e uma narrativa do nosso papel e função no universo. Assim como em todas as culturas, nossa mitologia não foi completamente inventada, mas representa uma perspectiva da verdade sob o olhar de preconceitos culturais. A ciência é a consumação dessa mitologia. O estudo da ciência, portanto, revela tanto sobre o universo quanto sobre nós mesmos.

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4 comentários sobre “A Ciência e seus mandamentos

  1. Achei interessante que você colocou a ciência clássica como uma espécie de ficção útil, isto é, um conjunto de teorias, de equações, que descreve um modelo de universo que funciona mas que não corresponde à realidade. Entretanto, a maioria dos cientistas que trabalhou e trabalha com a mecânica quântica possuem a mesma visão são a relação entre as teorias da física e o o universo em si. Quando perguntados sobre como é possível que um elétron esteja em dois lugares ao mesmo tempo, como é possível as bizarrices do mundo quântico, eles dizem algo parecido com esse instrumentalismo que você criticou, atribuindo-o à física newtoniana. Um dos maiores cientistas do século XX, Ricahrd Feynman, era um instrumentalista. Pra ele, a física não tinha essa função de criar teorias que fossem a coisa em si, a realidade como ela mesma, mas somente que os cálculos funcionassem. Ou seja, não é tão seguro assim dizer que a física quântica é a realidade em si e que a física clássica é uma ficção útil apenas.

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