Confissões de um ex-engenheiro

Há alguns séculos, o homem da razão é tido como acima dos demais, e a razão, melhor entre as formas de cognição. A razão tem esse status especial por ser um dom exclusivo da humanidade, que nos distingue dos animais e nos eleva além da herança biológica — nossos instintos e emoções. Ser racional, então, é ser mais elevado, ser mais homem e menos animal.

Usei a palavra “homem”, ao invés de “humano”, intencionalmente, pois o preconceito cultural há muito tempo atribui a razão somente ao sexo masculino. Homens são supostamente mais racionais, e as mulheres, mais emotivas e intuitivas. Mulheres são consideradas próximas de sua natureza, afinal, estão sujeitas às flutuações periódicas dos hormônios. A elevação do sexo masculino sobre o feminino também se encontra implícita em nossa elevação da razão, ainda encarada como traço masculino não porque os homens são mais aptos, mas porque a utilizam com maior frequência — até mesmo quando não é apropriada.

Perdidos, muitas vezes vagamos em um labirinto de racionalidade e ego, aplicando a lógica em qualquer situação, reprimindo emoções e empregando a razão. Me considerava mais cognitivamente desenvolvido e inteligente que a maioria das pessoas. Um tipo superior de homem, mais científico e racional. Em resumo, melhor — na verdade, mais um iludido. Ao me guiar pela razão, fui produto dos ideais iluministas e acreditei que uma nova Era da Razão nos guiaria à sociedade perfeita. A razão, enfim, seria a ferramenta onipotente que solucionaria todos os problemas do mundo.

Perdido nesse labirinto, tive problemas enquanto seguia minha própria “Era da Razão”. Procurava sempre tomar decisões lógicas, sendo indiferente. Tentava descobrir a solução pra tudo, mas minhas escolhas não tinham a convicção daquelas feitas com o coração. A dúvida me afligia e, paralisado pela indecisão, era incapaz de seguir minhas decisões plenamente. Para compensar a insensibilidade, criava uma enorme teia de racionalizações e justificativas pra me apoiar, mas por dentro continuava a me sentir perdido.

Muito tempo depois, entendi que todas as minhas justificativas eram, na verdade, racionalizações de escolhas já feitas não racionalmente, mas baseadas em algo inconsciente. Assim, minha prioridade se tornou desbravar o que antes era desconhecido e determinava minhas escolhas. Se não pela “razão”, por que fazia as coisas que fazia?

Só abandonei minha perspectiva racional quando uma série de crises acabaram com alguns aspectos da minha vida, de um modo que ficou claro pra mim que essa mentalidade de controle e gerenciamento absoluto estava condenada. Ainda há dúvidas de que também estamos, coletivamente, chegando a tal ponto?

Mas não se engane, não estou defendendo a abolição da razão. Assim como o Método Científico, a razão tem o seu espaço. Quando aplicadas em situações apropriadas, ambas são ferramentas capazes de criar verdadeiras maravilhas. O problema é quando vão além de seus domínios — como foram comigo — guiadas pela ânsia em controlar toda a realidade. Os danos e o esgotamento social e físico são apenas as consequências mais óbvias. Individualmente, outras pessoas sofreram — umas por falta de atenção, outras por falta de amor. Coletivamente, são culturas, ecossistemas e o próprio planeta. Continuamos insistindo, mas gerenciar e controlar as consequências só funcionam por algum tempo, e por um preço cada vez maior. A verdadeira causa permanece intacta: a mentalidade de separação — Eu vs outros.

O conhecimento não se encontra na cabeça, mas no coração. O coração é para o conhecimento, a cabeça para a reflexão. Na minha história, e em toda a cultura da ciência, a cabeça se apropriou da função do coração como “órgão do conhecimento”. Associamos intuitivamente a frieza da cabeça ao exercício da razão. Dizemos “friamente racional”, ou ainda, “sangue-frio”. Ora, a cabeça foi feita pra refletir, considerar e explorar, mas o coração é que foi feito pra saber e, portanto, escolher.

A ideia de uma escolha que não seja guiada pela razão vai contra o princípio fundamental da física clássica, o determinismo. A massa do sistema Newtoniano não tem escolha, seu movimento é totalmente determinado pelas forças que atuam sobre ela. Quando nos enxergamos da mesma forma, as promessas de controle feitas pela ciência cobram seu preço, nos deixando com uma sensação de impotência. Nos tornamos, assim como a massa Newtoniana, totalmente determinados pelas forças que atuam sobre nós.

O universo da ciência clássica é um universo de forças. Os avanços da Revolução Científica formularam esse princípio, mas na verdade ele veio de muito antes, desde as origens da separação; desde os antigos agricultores, aplicando força para manter a terra longe de seu estado natural; desde as grandes civilizações, substituindo elementos naturais por criações humanas através do trabalho. A conquista da natureza e do instinto humano requer, assim como qualquer manobra militar, apenas uma coisa: força. A história da tecnologia é também a história da humanidade, e na busca por obter cada vez mais energia ao seu dispor, evoluiu da energia humana para a animal, a água, o vento, o vapor, o óleo, o gás, a eletricidade e a nuclear. Assim como a energia (na física) equivale à força integrada sobre uma distância, o progresso da humanidade necessita de mais e mais força. Portanto, justifica-se a obtenção e o controle da força em prol da ambição humana, ou seja, devemos controlar todas as forças da natureza e inseri-las no reino humano — esse é o nosso destino.

A força (segundo a Física) representa a razão em nossas vidas. Assim como tentamos entender as situações analisando as razões que a causaram, também entendemos o comportamento de um sistema físico pela soma de todas as forças atuando sobre o mesmo. Minha “Era da Razão” tinha todas as características da ciência clássica. Uma vez mergulhado na ideologia da ciência, qualquer outra abordagem ao conhecimento parece absurda.

É irônico que minha própria tentativa de viver guiado pela ciência e a razão, motivado por um desejo de controle e estabilidade, tenha, ao invés disso, gerado crise e insegurança. O mesmo acontece globalmente. O Método Científico resume-se em “vamos testar e comprovar”, mas estamos cada vez mais inseguros, paralisados pela mesma dúvida que experimentamos também individualmente. A crescente polarização de ideias reflete o conflito de interesses da política moderna, os mesmos que impedem qualquer mudança significativa. Assim, tal como a massa Newtoniana, nos deixam impotentes e cambaleantes sob efeito da inércia do passado, cada vez mais influenciados por forças além do nosso controle. É hora de quebrar esse paradigma.

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