Sobre as consequências da meditação

Deixando de lado qualquer denominação ou influência religiosa, é interessante refletir sobre o fenômeno da meditação em sua essência: um processo de aprendizagem que transcende a consciência corporal, mental e espiritual.

Tudo o que conhecemos, ou somos capazes de conceber, tem origem nas sensações e em nossas experiências subjetivas. As sensações são, por assim dizer, a matéria-prima do nosso universo particular, ou seja, um dos sentidos — de “fora pra dentro” — de todas as interações humanas que compõem o que sentimos, acreditamos e, portanto, enxergamos à nossa volta.

Sob uma perspectiva subjetiva, relativista e abstrata, podemos traduzir nosso universo para o mundo mental e entendê-lo como uma interação entre dois tipos de ideias: simples, diretamente relacionadas às sensações, e complexas, resultado da combinação das anteriores por meio da reflexão.

Sendo assim, a meditação pode ser encarada como uma mudança de foco nas percepções com o objetivo de se desligar das ideias complexas — é como deixar de “refletir” para potencializar o “sentir”.

O foco nas sensações nos leva ao equilíbrio com o meio, como num abraço entre o “agora” e a “realidade”. Na ausência do pensar, produzir, analisar e julgar, abrimos espaço para sentir, absorver e apreender as formas mais sutis de comunicação entre o Eu (interior) e o meio (exterior).

Após algum tempo, deixamos não só de “refletir” mas também de “sentir”, dissolvendo os limites que nos separam do meio “exterior” — na extinção da dualidade, passamos a apenas “existir”. Aceitamos a realidade, tudo e todos simplesmente pelo que são. Existimos e deixamos existir, coexistindo, como uma espécie de comunhão com o meio à nossa volta, transcendendo o que chamamos de Eu e nos libertando de seus respectivos rótulos e limitações. Coexistimos, enfim, como realmente somos: extensão do próprio universo, em equilíbrio com toda sua complexidade e beleza.

Nos modificamos, quase como se entrássemos em sintonia com algo infinitamente maior e, naturalmente, enxergamos (mais) um caminho. Da sintonia, percebemos todo o espectro de sensações e suas nuances. Das sensações, refletimos e mudamos nossa forma de pensar, perceber e interagir com o meio — numa espécie de diálogo infinito.

É como se a meditação fosse uma forma de aprendizado, uma evolução através da harmonia, guiada por uma fonte inesgotável de energia. Inocentes e bem intencionados, insistimos em nomear a tal “fonte” para descrever nossas experiências e compartilhar o que nos faz bem, mas esquecemos que não é possível transmitir — e nem mesmo descrever — esse tipo de aprendizado que se manifesta como revolução de sentido único: de “dentro pra fora”. Esquecemos, acima de tudo, que nosso papel é ser “ponte”.

por Lindenberg Munroe

*Imagens: Lindenberg Munroe

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Um comentário sobre “Sobre as consequências da meditação

  1. O que você acha sobre os estudos que concluem que a meditação tem consequências para o cérebro, modificando sua estrutura (o que a princípio é óbvio, pois se algo muda a forma de pensar tão profundamente, é automático que isso tenha reverberações cerebrais)?

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