A inocência dos que culpam as estrelas, o dinheiro e a ganância

A ideia de propriedade, no sentido de “possuir algo”, surge naturalmente ao Eu separado e distinto. Assim como a objetividade Cartesiana divide o mundo entre Eu e “outros”, a propriedade o divide entre o que é “meu” e “seu”. Tal como o materialismo de Galileu em que apenas o que se mede é real, a Economia só reconhece valor no que pode converter em dinheiro. O ímpeto em possuir surge naturalmente como resposta a uma ideologia alienadora, que induz à obstrução de laços afetivos e nos deixa isolados no mundo. Privado de laços e identidade com os demais seres, o que resta desse minúsculo e isolado Eu sente uma necessidade voraz de reivindicar o máximo do que perdeu de si mesmo. Se o mundo inteiro, toda a vida e a terra não são mais Eu, ao menos posso compensar tornando-os “meus”.

Dizemos que as crianças desejam apenas o que precisam. O mesmo vale para os adultos, exceto que seus desejos foram tão distorcidos que deixaram de satisfazer as necessidades mais básicas, às vezes até intensificando-as, como é o caso da ganância. A chamada “ganância” não é nenhum tipo de “câncer da natureza humana” que deve ser controlado ou combatido, mas surge, sim, de uma ânsia por identidade, ou melhor, por uma riqueza de relações sob as quais a identidade é construída. Ironicamente, seguindo o padrão de qualquer vício, alimentar a ganância só faz agravar a real necessidade, pois incluir mais do mundo ao domínio do “meu” nos separa ainda mais da conexão e interrelação com o “todo” — a verdadeira necessidade.

Ter consciência dessa real necessidade pode alterar qualquer julgamento com relação à ganância. Da próxima vez que testemunhar a ganância de alguém, por que não enxergá-la como uma compulsão alimentada pela insegurança ou carência? O mesmo vale para o egoísmo, que se manifesta como uma necessidade sufocante de querer gerenciar e controlar o mundo exterior, além de “si mesmo”, em benefício próprio. O egoísmo, em todas as suas formas, busca o benefício e a expansão de um Eu artificialmente reduzido.

Como a palavra “meu” sugere, “possuir” implica em “anexar coisas à si mesmo” — quanto mais possuímos, mais somos. As fronteiras do Eu, quando somadas ao que se possui, crescem. Mas não importa o quanto esse Eu distinto e separado cresça, será sempre menor que o Eu original. A mentalidade primitiva, anterior ao paradigma da separação, poderia afirmar espontaneamente sem nenhuma contradição: “Eu sou este corpo, esta tribo e esta terra”, “Eu sou o mundo.” Não importa o quanto possuímos da terra, seremos sempre menores do que aquele que tem consciência e sente: “Eu sou esta terra.” Não importa o quanto somos socialmente aceitos, sempre seremos bem menos do que aquele que tem consciência e se identifica: “Eu sou esta tribo.” Além disso, bem menos seguros também, pois todas as posses — esses anexos ao nosso Eu separado — podem ser facilmente retiradas de nós. Dessa forma, estamos constantemente e irremediavelmente inseguros. Damos duro para proteger todos esses acessórios que compõem nossa identidade: posses, dinheiro e reputação; e quando temos a casa invadida, a carteira roubada ou a reputação manchada, sentimos como se nós mesmos fôssemos violados.

O consumismo surge da separação, mas também a reforça. A ideia de que uma floresta, um gene, uma ideia, uma imagem ou uma música é algo separado, que permite apropriação, é bem recente. Quem somos nós, afinal, para nos declarar donos de uma parte do mundo, separá-la do universo e torná-la nossa? Tal arrogância, outrora desconhecida, tem o triste efeito de nos afastar da realidade, rompendo as relações entre nós mesmos, a natureza e o “todo”. Ao enxergar o mundo, e tudo o que há nele, como objeto, criando um mundo de “outros”, também passamos a nos enxergar como objetos em relação ao mundo. O Eu se torna um ego isolado e solitário, conectado ao mundo de forma pragmática e superficial, com medo da morte e, portanto, limitado para o viver. Esse Eu, afastado de sua verdadeira natureza e sentindo-se separado do mundo a sua volta, fruto de sua própria definição de si mesmo, estará sempre inseguro e continuará tentando impor cada vez mais controle sobre seu meio.

O grau de identificação com o corpo, os pertences e tudo o que se controla é proporcional ao medo da morte. Não falo daquele terror biológico que faz qualquer animal lutar com um predador pela sobrevivência, mas do pânico no contexto de um ambiente que nos leva à covardia e apatia. Mais do que qualquer outra crise, a mera proximidade da morte faz ruir a fortaleza do Eu separado. Ver a morte de perto, ou até o falecimento de um ente querido, nos conecta a uma realidade além dos conceitos de “si mesmo” e do que é “meu”. A morte faz abrir o coração para nos lembrar, com uma clareza que supera a lógica, que só o amor é real. E o que é o amor, senão a união das fronteiras entre Eu e o outro? De forma poética, o amor também é um tipo de morte.

Para uma pessoa que se identifica com a comunidade, o meio em que vive e o planeta, a morte do próprio corpo e tudo o que ele controla é muito menos assustadora. Este é o tipo de pessoa apaixonada pelo mundo. O amor é um antídoto contra o medo da morte, pois amplia as fronteiras do Eu para além do que é possível se perder. Inversamente, o medo da morte impede a manifestação do amor à medida que impõe limites e nos torna pequenos. É mais fácil lidar com esse medo da morte quando temos consciência de sua origem, quando percebemos que já faz parte do nosso cotidiano e ideologia, parte da definição do Eu implícita na ciência objetivista.

O dinheiro e a propriedade são manifestações concretas do Eu separado, que tem medo da morte por não amar completamente. O dinheiro, tal como o conhecemos hoje, é antiamor. Porém, não é a origem de todo o mal, apenas outra expressão da separação. Ajustes no sistema monetário a fim de estimular um efeito oposto ao atual, desencorajando estruturalmente a acumulação do Eu e do “meu”, ainda são possíveis. Mas não se pode mudar todo o sistema monetário de forma isolada. O sistema atual não só corresponde ao nosso conceito distorcido de si mesmo e identificação com o ego, como também está de acordo com o processo histórico de separação da humanidade.

Avançando através da Idade da pedra, do fogo, da linguagem e dos números, a objetificação do mundo alcançava um outro patamar e se consolidava com o advento da agricultura: a domesticação e a transformação da natureza em prol dos interesses humanos. Então a Máquina levou a separação a um outro nível com sua promessa de transcender as limitações naturais. Passamos a nos colocar acima da natureza, enquanto comunidades eram arruinadas como efeito colateral da produção em larga escala e divisão do trabalho — pilares do mundo-Máquina. Finalmente, os métodos e a lógica das máquinas chegaram ao ápice com a ciência, elevando a crescente ideologia do Eu distinto e separado ao status de “verdade absoluta”.

Após todo esse processo, o palco estava montado para que essa ideologia materialista de separação roubasse a cena tanto no âmbito econômico quanto social. Quando o mundo se torna uma porção de objetos (tal como no simbolismo cultural) para que sejam submetidos ao uso do homem (tal como na domesticação e na agricultura), acabam se transformando, inevitavelmente, em propriedades: coisas que podem ser compradas e vendidas, definidas apenas por sua utilidade. Quando a ciência e a tecnologia completarem seu domínio sobre a natureza, a conversão do mundo em dinheiro e propriedade tende a se completar também. A redução da vida em bens e dinheiro se intensifica com a separação, num processo que surgiu com a agricultura, sim, mas chega à realização conceitual somente com o mundo-Máquina Newtoniano.

O dinheiro não é — e nunca foi — a causa, mas apenas o instrumento catalisador desse processo de separação; consequentemente, nosso distanciamento da natureza, do amor, da comunidade e do “todo” vai chegando ao extremo. Portanto, não, a culpa não é das estrelas — nem da ganância ou do dinheiro.

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