Dualismo: o verdadeiro Pecado Original

Dualismo é a ideia de que o universo se divide em duas partes: matéria e espírito, Deus e criação, humano e natureza, Eu e outro. Porém, não se consideram as partes de forma simétrica, logo, o Eu é mais importante, o outro, menos. Na religião, alma é o Eu, corpo, o outro. A alma é importante, enquanto a carne, na melhor das hipóteses, é irrelevante, sendo até considerada como “obstáculo à vida do espírito”. Fora da religião, o mesmo dualismo se manifesta como mente = “Eu” e corpo = “outro”. Nos identificamos com nossa mente, mas não com o corpo, não com outros seres e, certamente, não com o resto do mundo.

Mesmo quando tentamos desenvolver compaixão, uma leve identidade com esse ilusório “Eu separado” ainda permanece incorporada ao modo como enxergamos o mundo. Na verdade, a própria “tentativa de compaixão” é um sintoma dessa mentalidade. Não se admira estarmos tão fora de sintonia com nossos corpos; sofrermos com uma saúde mental tão precária; tratarmos o mundo material com tanto desdém; infligirmos tamanha violência contra esses (menos importantes) “outros” — outras religiões, outras nações, outras etnias e outras espécies.

Coletivamente, o dualismo se manifesta de maneira similar, dividindo o universo em duas partes: o Eu, e portanto a mais importante, e o “outro”, que só importa à medida em que afeta o Eu. O dualismo motiva argumentos bem intencionados sobre a conservação de “recursos naturais” — veja como esta locução, por si só, já sugere a subordinação da natureza ao homem e define o mundo em função de sua utilidade. Aposto que você já ouviu algo mais ou menos assim: “Florestas devem ser preservadas porque algum dia (nunca se sabe, né?) poderemos extrair princípios ativos importantes para a medicina” ou então “Imagine o prejuízo econômico da erosão do solo!” Tais argumentos, além de contraditórios, acabam reforçando a própria mentalidade que se encontra na raiz do problema: o mundo é um “outro”, que podemos usar conforme nos convém.

O resultado dessa lógica dualista — em que o outro só importa à medida em que afeta o Eu — tem o mesmo efeito de um câncer, algo que corrói as bases de qualquer sistema moral, ético e responsável, fazendo-os sucumbir rapidamente após uma sequência de pragmáticos “quem se importa?”

Exceto por razões pragmáticas, por que eu deveria me importar com qualquer coisa além de mim mesmo? A resposta padrão religiosa, “porque Deus quer” ou “porque Deus castiga”, não leva a lugar algum, pois essa moral também se resume ao pragmatismo — deve-se evitar cometer pecados apenas para se livrar de castigos divinos. Portanto, não há nenhuma diferença entre as duas motivações (pragmáticas e religiosas). Devemos temer algum castigo para sermos bons? Devemos nos forçar para manter o autocontrole, mesmo renunciando aos nossos próprios interesses (naturais) que, por sua vez, poderiam ser maximizados se fôssemos impiedosos com o mundo? Será que esse eterno conflito é nossa única alternativa?

Por que eu deveria me importar, como indivíduo dualista, em fazer qualquer coisa por alguém? O que me impede de poluir sem remorso? Por que eu não deveria te roubar, se pudesse sair impune? Imagine o seguinte diálogo:

— Por que eu não deveria poluir o quanto quisesse?
— Ué, porque estaria destruindo seu próprio ambiente.
— Sim, concordo. Então eu deveria poluir apenas o ambiente do meu vizinho…
— Mas se fosse pego, sofreria consequências que não compensariam o risco.
— Ok, então eu só vou poluir até o ponto em que o risco compense. Farei tudo por debaixo dos panos, enquanto mantenho as aparências de bom vizinho. Talvez possa até receber dinheiro de uma indústria inescrupulosa para descartar produtos tóxicos no esgoto. Ninguém vai descobrir. Ou então, digamos que eu seja uma empresa e quero poluir para aumentar minha margem de lucro. Posso financiar um estudo tendencioso e criar publicidade para divulgar que a poluição não é tão ruim assim. Por que não? Quem se importa?
— Se você e os outros fizessem isso, estaríamos todos perdidos.
— É verdade. Então eu apoiaria leis e morais para prevenir que outros também o façam. Mas por que eu mesmo não deveria fazê-lo, se posso sair impune? Por que não manipular outros seres (“veículos de sobrevivência”), sejam eles da mesma espécie ou não?

Em outras palavras, por que se importar com o resto do mundo? A simples existência do “Eu”, como produto do dualismo, sugere que o universo é um “outro”, também discreto e separado. Assim, enquanto eu puder me isolar do mundo lá fora, posso fazer o que quiser. Se os únicos limites são aqueles pragmáticos, posso analisar caso a caso e julgar minhas ações em benefício próprio. Por exemplo: será que eu deveria roubar a bolsa que essa mulher deixou ali enquanto foi ao banheiro? Vejamos… Antes, preciso estimar os riscos e benefícios. Devo encontrar cerca de $150 na bolsa, o risco de ser pego deve ser de 2% e a fiança (ou suborno) pra me livrar disso tudo ficaria por $5000. Calculando, chego ao saldo de $47 ($150*98% – $5000*2%). Então eu roubo, mas se a fiança/suborno aumentasse para $8000, não valeria mais a pena.

Essa lógica parece absurda, mas é precisamente a mesma que está por trás de um sistema legal baseado na intimidação. Esse tipo de sistema busca impor penalidades para alterar o comportamento racional de um indivíduo que, caso contrário, agiria apenas em benefício próprio. Se não houvesse nenhuma forma de punição, roubar estaria racionalmente de acordo com nossos próprios interesses.

Que tal extrapolar essa linha de raciocínio um pouco mais? Sabemos que ninguém calcula, de fato, os riscos e benefícios de cada oportunidade em lucrar às custas do outro. Esse processo já foi automatizado através de condicionamentos morais durante a infância. Nossos pais, professores e demais autoridades nos condicionaram a não ser egoístas, recompensando ou punindo comportamentos conforme eram “bons” ou “ruins”. Os “bons comportamentos” foram reforçados de tal forma que deixaram de ser “irracionais”, se alinhando, então, com os nossos próprios interesses ou egoísmo. Acabamos internalizando esses reforços, que se manifestam como culpa, consciência e hábitos. Afinal, se nossa natureza é egoísta, impiedosa e depravada, deve precisar de um longo período de condicionamento para ser subjugada de modo que se mantenha a moral, a ética e um comportamento decente.

Nesse ponto, pode-se estabelecer uma relação inseparável entre dualismo e controle. Desprovido de uma “morada orgânica” para o espírito, o mundo material que a ciência nos oferece — indiferente, sem propósito e implacavelmente competitivo — clama pelo controle que batizamos de “tecnologia”. O corpo físico, dominado por anseios malignos ou pecaminosos nesse mundo materialista, também clama por controle via condicionamento moral, educação e cultura.

Todo esse programa de controle, por sua vez, requer a redução do mundo e a discretização do infinito. Na ciência, buscamos controlar as variáveis, na engenharia, descrever cada fenômeno concebível através de equações. Mas nossos esforços em controlar sempre fracassarão enquanto o infinito resistir e, consequentemente, se libertar através das mais variadas manifestações: as variáveis incontroláveis na ciência, os imprevistos na vida, a criatividade, os milagres e o inexplicável. E o que fazemos? Ampliamos ainda mais o controle, até tornar o sistema “infalível” outra vez. Mesmo após milhares de anos, não importa o quanto nos esforçamos, o infinito teima em retornar.

O verdadeiro pecado original, portanto, é o dualismo. Pintamos tudo de preto e branco, admitindo que uma das cores é boa, a outra, ruim. Como seria o mundo se acreditássemos que todas as cores têm a mesma origem? Se ao invés de condicionamento, fôssemos encorajados a descobrir e desenvolver nossos dons? Se o corpo fosse apenas outra forma de expressão do espírito e, assim, tão importante quanto ele? Se homem e Deus fossem, de fato, um só? Se você e seu vizinho fossem extensão um do outro? Imagine um mundo sem dualismo.

Anúncios

11 comentários sobre “Dualismo: o verdadeiro Pecado Original

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s