Menos reza, mais amor

Sob a influência do dualismo, buscamos dividir o mundo em duas partes: uma infinita e outra finita. Então, procurando pelo caminho mais fácil (ou menos assustador), mergulhamos no que é finito — o que é possível medir e controlar. Somos como aquele sapo que pulou no poço e, incapaz de ver além das paredes ou lembrar do mundo lá fora, se declarou rei de todo o universo. No fundo, nosso reinado sobre a natureza é apenas uma ilusão, pois começa com uma precipitada tentativa de redução da mesma. Em outras palavras, trata-se da redução da vida, dos sentimentos e do ser: uma barganha “Faustiana” do infinito pelo finito.

Tal redução assume muitas formas e tem muitos nomes, desde a domesticação do selvagem, a mensuração e quantificação da natureza, até a conversão de riquezas culturais, naturais, sociais e espirituais em dinheiro. A redução da vida é inevitavelmente acompanhada de violência — afinal, há violência maior que sua própria redução?

A violência é uma característica inerente ao modo como enxergamos o mundo; está implícita em nossa concepção do Eu como um ser separado num universo cheio de outros, em constante competição pela sobrevivência; se encontra na objetificação de outras pessoas, seres e até mesmo da própria Terra, o que permite, e também justifica, a violência contra tudo e todos.

Nada parece tão ruim ou violento quando se trata de uma praga, um animal, um selvagem, um inimigo ou uma coisa, não é? A desumanização da vítima torna tudo mais tolerável, incluindo a tortura e o genocídio, à medida que transforma humanos — e qualquer ser vivo — em objetos. Porém, é apenas uma das particularidades da separação entre nós mesmos e o mundo, um fenômeno artificial e ilusório. Assim, a causa raiz da violência se torna clara, pois nada mais é do que o resultado de uma profunda ignorância: não sabemos mais quem somos.

É curioso como os maiores representantes da paz na história da humanidade pregavam basicamente a mesma coisa: algo além do autocontrole, do sacrifício ou do esforço para se tornar bom, ou seja, uma entrega completa (um ato de fé) ao nosso “verdadeiro ser”, não àquele separado e discreto “ser” da ciência e religiões atuais. Buda sugeria nada menos que isso quando, abordado por aqueles espantados com seu esplendor, perguntavam “O que houve com você?”, ao que simplesmente respondia, “Despertei” — esta é a real condição do ser humano. Jesus também dizia nada menos que isso, especialmente quando falava do amor de Deus — não pelo que poderíamos ou podemos ser, mas pelo que realmente somos.

Moisés, no alto da montanha, perguntou à fonte divina, “Quem devo dizer que me enviou?”, e obteve a resposta, “Eu sou”. Ué, como assim “Eu sou”? Eu sou o quê? Tudo e nada. Mesmo que nos dividam em pedaços infinitesimais, nunca encontrarão aquela parte especial de nós que chamamos de Eu (alma, espírito, mente, consciência). Portanto, somos nada. Mas se nos separarem de qualquer fração do universo, nos reduzirão. Portanto, somos tudo.

Se a fronteira entre nosso Eu e os outros é falsa, ao cometer violência contra um outro, estamos, na verdade, cometendo contra nós mesmos. Isto te parece familiar? A “advertência” anterior está presente em muitos dos maiores ensinamentos espirituais. A doutrina do Karma, por exemplo, ensina que as consequências das nossas ações são inevitáveis, e que nossas ações, especialmente em relação aos outros, também refletem em nós. Contudo, esse significado é geralmente distorcido por instituições religiosas, daí o “seja bom, ou então será punido”.

A Regra de Ouro, “o que fizer aos outros, estará fazendo a si próprio”, funciona da mesma forma, mas como seu significado original não faz sentido algum segundo a mentalidade dualista, a deturpamos numa regra, num padrão de comportamento a ser seguido. Originalmente, tanto a doutrina do Karma quanto a Regra Áurea eram apenas constatações, não leis ou regras, de uma realidade baseada numa concepção diferente do Eu.

A bela mensagem, “ame ao próximo como a si mesmo”, também é má interpretada pela mentalidade dualista. Ao invés de uma regra, poderíamos traduzi-la como a simples observação de um fato: seu amor ao próximo é apenas reflexo do seu amor próprio; não há distinção entre você e o próximo; não há separação alguma. Jesus não saiu por aí pregando simples clichês morais. No entanto, considerando que falava para pessoas mergulhadas nesse mito do Eu separado, não se admira que seus ensinamentos fossem imediatamente mal interpretados e escritos da forma como conhecemos hoje. O modo como foram traduzidos — entre mandamentos e proibições — coincide com os mesmos interesses institucionais de forças políticas que, desde a Antiguidade, se agregam aos movimentos religiosos.

A mentalidade dualista só é capaz de lidar com a ideia de Karma ou Regra Áurea de uma única maneira: assumindo a existência de um juiz supremo, uma espécie de “árbitro cósmico” capaz de ponderar todas as ações e decretar suas respectivas recompensas ou punições. Porque se você e o próximo são fundamentalmente separados, não há motivo para acreditar que a natureza de suas relações terão, necessariamente, consequências — ainda mais se você tomar os devidos cuidados. Assim, cria-se a necessidade de um Deus onisciente, responsável por levar as tais consequências até você.

A ideia de que Deus é uma força exterior, que impõe e regula a moral, funciona como uma “muleta” para a mente que se perdeu no mito da separação; em outras palavras, é apenas um modo simples e distorcido de compreender as consequências do que fazemos com os outros. Essa concepção de um Deus sobrenatural pode até ser benéfica à curto prazo, mas acaba reforçando a ilusão da separação. É o que se observa na maioria das igrejas cristãs que tratam o descaso humano com o planeta como algo mundano ou até mesmo irrelevante.

Sob a perspectiva do dualismo, religiosos argumentam que “sem Deus, não haveria moral”, cobertos pela própria verdade. Dizem, “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Caso contrário, o que me impede de fazer mal ao próximo? Se ninguém souber, não vai me acontecer nada. Podemos desmatar florestas inteiras. Talvez as consequências nem cheguem até nós, e se chegarem, sempre podemos lidar com elas. Veja só como isso nos leva de volta ao mundo que requer controle. Podemos até nos safar de tratar a natureza como um recurso, como uma coisa ou um “outro” qualquer, para explorá-la ao máximo, desde que se possa lidar pragmaticamente com as consequências — e não há motivo pra pensar que não podemos. Se formos espertos, podemos seguir impunes fazendo o que quisermos com o mundo.

Mas tudo muda com a compreensão de que Eu e o mundo, homem e natureza, não são separados. Após essa quebra de paradigma, percebemos que tudo está conectado e, portanto, qualquer esforço em controlar as consequências estará apenas adiando o inevitável. A fé num Deus exterior, onisciente e arbitrário — que recompensa ou castiga — serve apenas como mediador entre esta bela compreensão e a mentalidade dualista. Infelizmente, esta concepção dualista de Deus nos induz a pensar em termos de agradá-lo e obedecê-lo, buscando recompensas e evitando castigos, ou seja, de volta ao regime de controle. O amor é uma questão de percepção, empatia e humildade, resultado de um modo de ser que transfere toda aquela divindade para o seu devido lugar: entre nós mesmos.

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