A meritocracia justifica a desigualdade?

Temos a ilusão de que conhecemos todos os problemas sociopolíticos do Brasil. Afinal, os meios de comunicação já fizeram todo esse esforço de mapeamento, não é mesmo? A desigualdade brasileira é algo que vem de longa data, mas ainda é reforçada diariamente por ações cotidianas de violência simbólica e apatia com relação ao “outro”. O senso comum justifica a disparidade entre ricos e pobres pelo passado de colônia explorada, mas enquanto não levarmos em consideração o que ocorre atualmente, continuaremos enxergando somente parte do problema.

 

umA perspectiva “economicista”

É hora de questionar as lentes que utilizamos para perceber e entender a realidade. Seduzidos pelo enorme valor da ciência e sua abordagem objetiva, nos acostumamos com a quantificação e o fetiche por números, geralmente enfatizados como se pudessem substituir a interpretação e a explicação. A Estatística oferece ampla abertura para distorções e margem para objeções, afinal, esta é a natureza dos números. Pode-se consolidar estatísticas para embasar quase tudo que se queira afirmar, é só uma questão de selecionar os dados brutos, filtrar, ponderar segundo algum critério, utilizar uma escala adequada e criar uma história convincente. Assim, em discursos cheios de “certezas”, pode-se afirmar muita coisa com base nos “fatos e dados” escolhidos.

As estatísticas de hoje são como os discursos dos “doutores” de outrora, cheios de palavras difíceis para camuflar a falta de conteúdo. Fragmenta-se o conhecimento e isola-se uma determinada característica a fim de produzir estatísticas sobre coisas não compreendidas em sua totalidade. Do outro lado, o leitor, muitas vezes leigo, faz de conta que entende o simulacro de conhecimento. Enfim, o embuste se completa.

Na prática, esse fenômeno se traduz em uma visão limitada, que trata questões sociais e políticas com um olhar econômico e reducionista (economicista). Essa miopia deve-se, em grande parte, a uma postura liberal de demonização do Estado e glorificação do Mercado. Afinal, é preciso uma visão simplista que ignora as ambiguidades de ambas estruturas socioeconômicas a fim de garantir a perpetuação do abismo social no Brasil, a campanha para manter os privilégios econômicos de uma minoria em nome do “desenvolvimento do país” e, por fim, o combate a uma corrupção que parece existir exclusivamente no Estado. Em meio a essa dramatização de bem vs mal, os verdadeiros conflitos sociais, que pressionam milhões de brasileiros a uma vida de exploração e sacrifício, permanecem invisíveis.

A mentalidade conservadora é hegemônica no Brasil, como demonstram nossas maiores referências quando o assunto é a própria sociedade brasileira: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Roberto DaMatta e cia. Assim, uma atitude pragmática de quem se considera esclarecido invade a esfera sociopolítica para oferecer sua “solução mágica”: basta melhorar a gestão de recursos. Cria-se, portanto, uma falsa impressão de que conhecemos as causas desses problemas, faltando apenas competência e eficiência para solucioná-los. Essa é a visão liberal e tecnocrática de mundo.

A crença economicista (econômica e reducionista) acredita que as pessoas se comportam como agentes racionais em disputa por recursos escassos. Além disso, considera que os miseráveis têm as mesmas capacidades e disposições de alguém da classe média, bastando um auxílio temporário do governo para que “aprendam a pescar” sozinhos. Essa é a lógica por trás de muitas das políticas assistencialistas atuais.

Segundo esse mesmo raciocínio, que idealiza e considera as coisas fora de seu contexto, a Educação é o remédio para todos os males. Ignora-se que a escola segue apenas dando legitimidade ao processo de divisão social que começa muito antes do ensino básico, na própria socialização familiar produzida por diferentes culturas de classe.

Por enxergamos a sociedade de modo superficial e conservador, temos a tendência de perceber a realidade em termos de classes econômicas, seja pela renda ou pelo espaço que um indivíduo ocupa nos meios de produção e serviços. Porém, confundimos causa e efeito quando não levamos em consideração todos os fatores e condições sociais, emocionais e culturais que dão origem as tais “classes”. Para se aprofundar na questão da desigualdade, deve-se compreender sua gênese e reprodução.

 

As origens e a reprodução de uma classe “invisível”

Vejamos uma das características mais importantes quando se fala em classe social: a herança. Ora, a primeira coisa que nos vem à cabeça é o aspecto econômico, como a transferência de bens ou dinheiro. A herança pode significar abundância ou carência, mas tendemos a lembrar apenas do que é material e palpável. Assim, a miopia da visão economicista se revela por não considerar justo o que é mais importante: os aspectos sociais e culturais da herança, sem os quais não haveria reprodução das classes sociais.

Filhos de famílias ricas herdam, acima de tudo, o estilo de vida, o “bom gosto”, as habilidades sociais e diversas influências culturais — mesmo que isso se resuma a conhecer países exóticos, vinhos e restaurantes badalados. São esses pequenos detalhes que inserem, gradualmente, a criança em seu círculo (classe) social. É isso que garante as amizades certas, casamentos vantajosos e acesso à relações de poder (capital social).

Para a classe média, é ainda mais difícil perceber a herança imaterial. O processo de reprodução do capital cultural é mais sutil que o da elite, pois ocorre naturalmente no meio familiar. A criança acostuma-se desde cedo a ver os pais lendo, a prima falando inglês e o irmão mais velho desbravando os segredos da tecnologia. Assim, a incorporação desses comportamentos e disposições ocorre por identificação afetiva, ou seja, imitando-se aquilo ou alguém que se ama. Sabemos que a Escola e o Mercado são implacáveis na cobrança por uma atitude adequada, seja para “aprender” ou “produzir”. Por isso, toda essa vivência da criança de classe média será crucial para, anos mais tarde, almejar melhores condições de vida e trabalho.

A maneira como as classes se reproduzem por meio da transferência de heranças, especialmente as imateriais, é completamente invisível segundo a visão economicista, que projeta as condições da classe média para as classes “inferiores” como se fossem as mesmas. Ignora-se a socialização familiar e sua influência no desenvolvimento social, emocional e econômico, responsáveis em grande parte por criar um profissional qualificado e produtivo. Consequentemente, o que se chama de “mérito individual” é sustentado pelo fracasso dos mais pobres, ou melhor, pela “culpa individual” dos excluídos. O abandono das classes mais baixas, ignorado por toda sociedade, tem um único propósito: legitimar o privilégio (econômico ou cultural) de poucos.

Recorro à Max Weber, um dos fundadores da Sociologia, quando digo que para os ricos e cultos não basta ser feliz e privilegiado, é preciso sentir-se digno de felicidade e privilégios — não só hoje, mas ao longo da história também. Antigamente, esse tipo de legitimação era um dos papéis da religião. Conforme a ciência foi tomando a autoridade da religião para falar e pensar na sociedade, visões pseudocientíficas como o economicismo se consolidaram para garantir “boa consciência” aos privilegiados — se eles “merecem”, é justo que seja assim.

Numa sociedade como a brasileira, entre o abismo social, a modernização seletiva e uma democracia incipiente, é muito fácil manter uma percepção distorcida da realidade, isto é, focar apenas nos fatores econômicos e materiais. Todas as demais precondições sociais, familiares e emocionais, que permitem a reprodução do status quo, são deliberadamente “esquecidas” em prol da continuidade desses privilégios de classe.

Para entender essa divisão de classes é necessário se atentar aos mecanismos de transferência dos capitais econômico e cultural que garantem o acesso desigual aos recursos e, portanto, a manutenção da sociedade moderna. Em linhas gerais, a classe alta é determinada pela apropriação de capital econômico por herança familiar. O capital cultural, por outro lado, está intimamente ligado ao conhecimento técnico e escolar responsável pela constituição tanto do Mercado quanto do Estado. Nesse contexto, as classes médias se caracterizam historicamente pela assimilação desse tipo de capital.

O problema é que a sociedade também se constitui por uma “classe invisível” de indivíduos que, além de não possuírem capital econômico e cultural, não têm condições sociais, psicológicas e culturais para obtê-los. Não se trata do “conflito de classes” marxista, mas de um completo abandono social e político — com o aval de toda sociedade — de milhões de pessoas em condições precárias, geração após geração. Nos referimos a essa classe social como um conjunto de indivíduos carentes ou perigosos, tratados superficialmente por temas como violência, segurança pública, fracasso escolar, saúde precária, combate à fome etc., que sequer mencionam a causa raiz: a falta de precondições essenciais, desde o nascimento, para a participação ativa na sociedade moderna.

 

A meritocracia como fronteira entre o “talento inato” e o “estigma inato”

A legitimação de um mundo moderno e justo depende desse “esquecimento” para validar a ideia de meritocracia, isto é, a crença de que superamos as condições pré-modernas de influência do meio (laços de sangue, sobrenome e afins), como se a competição por recursos dependesse exclusivamente do desempenho individual. Logo, quem é 10 vezes mais produtivo e esforçado que os outros deve ganhar 10 vezes mais — nada mais “justo”. Esse teatro disfarçado de lógica é empregado tanto pelo Mercado, que diz remunerar de acordo com o desempenho, quanto pelo Estado, que alega abrir concursos públicos para selecionar os melhores candidatos.

Ora, o que eles (Mercado, Estado e senso comum) não percebem é que as condições supostamente individuais para o sucesso dependem, na verdade, de condições sociais. E não percebem porque, pautados numa perspectiva conservadora e quantitativa, esse fenômeno acabou se naturalizando — tornou-se invisível e, portanto, inquestionável. O mito do talento inato não existe, ou seja, não há mérito individual sem a “sorte” de ter nascido na classe social certa.

O que se chama de talento inato é resultado da transmissão de capacidades e habilidades por mecanismos de identificação afetiva (exemplos cotidianos de comportamento que os familiares dão aos filhos), garantindo a reprodução das condições de classe ao longo do tempo. O desenvolvimento cognitivo e as habilidades das classes alta e média são fatores que permitem o sucesso de seus filhos na escola e, anos mais tarde, no mercado de trabalho.

Assim, o tal mérito individual não é tão “individual” como muitos pregam, uma vez que é produzido desde o nascimento por heranças afetivas de diferentes culturas de classe. Tomar algumas raras exceções como regra (histórias à la Sílvio Santos) só serve aos interesses das classes mais altas, pela manutenção dos próprios privilégios, ou ao próprio ego, pelo sentimento de realização que a imagem de “vencedor apesar das dificuldades” proporciona. A ignorância desse fenômeno, seja isso proposital ou não, é o que alimenta tanta ilusão e confusão no debate brasileiro sobre a desigualdade.

Sem capital econômico e cultural, as classes mais baixas se reproduzem como meros corpos e, por isso, são incapazes de atender às demandas do mercado de trabalho moderno e altamente competitivo. Aqui, vale ressaltar que não se trata apenas de um “excesso de mão de obra”, geralmente utilizado pelo Mercado como poder de barganha para oferecer salários mais baixos. Um trabalho que antes necessitava de uma pequena incorporação de conhecimento técnico, hoje requer um conhecimento prévio muito mais diversificado e complexo. Ainda que os indivíduos de classe baixa possuam capacidades suficientes para desempenhar seus subempregos, estão muito aquém do que é exigido pelo Mercado — basta lembrar do “gargalo de crescimento” brasileiro em 2008.

Sem possibilidade de inserção no setor produtivo, a única alternativa desses indivíduos é utilizar o próprio corpo enquanto energia disponível para trabalho. Desse modo, são explorados pelas classes média e alta como mão de obra barata, seja no trabalho doméstico, no trabalho braçal e desqualificado ou, literalmente, como “corpo à venda” na prostituição. Os benefícios gerados pela exploração do trabalho desvalorizado dessa classe são evidentes — e os privilegiados agradecem.

Para ficar ainda mais claro, basta pensar no quanto a classe média brasileira utiliza as empregadas domésticas para poupar o tempo de tarefas domésticas repetitivas e, assim, direcioná-lo para atividades produtivas e valorizadas pela sociedade. Sem falar na proliferação dos planos de saúde como exemplo de serviços com qualidade diferenciada para dois mundos: um para os que podem pagar e outro para o resto. O mesmo acontece com a educação, justiça, etc.

 

O desafio de reconhecer uma “luta de classes” cotidiana e silenciosa

Como já disse, não se trata da tal “luta de classes” que ganha manchetes quando transformada em espetáculo pelos interesses comerciais da imprensa, nem da versão marxista em prol de uma revolução dos trabalhadores. Trata-se de algo cotidiano e invisível, que se reproduz silenciosamente numa sociedade que naturaliza a desigualdade e aceita a consequente divisão entre humano e sub-humano.

A culpa não é só do Estado, mas também de um consenso social responsável por eleger temas dignos de debate e mudanças. Somos nós (você e eu) que “escolhemos” debater a desigualdade de forma superficial. A “invisibilidade” do fenômeno é apenas consequência. Essa “classe social”, percebida como parcela podre da população, é composta por indivíduos que nasceram sem o bilhete premiado, sem o talento inato das classes alta e média. Para esses indivíduos resta apenas o estigma inato, uma condição que os deixa a um passo da delinquência.

Aquela oposição clássica entre trabalhadores e burguesia é coisa do passado. A realidade nos mostra a oposição entre uma classe de excluídos, sem oportunidades nem reconhecimento social, e todas as demais classes, em maior ou menor grau, privilegiadas. A percepção dessa classe de excluídos implica uma nova perspectiva dos problemas sociais brasileiros.

Esse é o nosso desafio, a começar pela desconstrução da mentalidade economicista que enxerga tudo como “problema econômico” e se limita a receitar um remédio genérico para todos os males. Na pior das hipóteses, a negação da visão economicista contribui para deixarmos de nos avaliar como economia, pelo tamanho do nosso PIB, e começarmos a nos avaliar como sociedade, pela forma como tratamos as pessoas e o meio ambiente.

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